Síndrome de Guillain-Barré

Diagnóstico e Tratamento em Dez Etapas

Aspectos diagnósticos, decisões terapêuticas e condutas de acompanhamento

01. Quando suspeitar de SGB

Suspeite de Síndrome de Guillain-Barré (SGB) diante de fraqueza muscular progressiva e simétrica em vários membros, reflexos tendinosos diminuídos ou ausentes e possível acometimento facial/bulbar.

Normalmente, os sintomas aparecem dias após infecção respiratória ou gastrointestinal (por vezes com diarreia) e evoluem rapidamente, em menos de uma semana.

O diagnóstico e tratamento precoces são cruciais para um bom prognóstico.

Apresentação clínica

Pacientes apresentam fraqueza muscular que evolui de maneira progressiva, envolvendo múltiplos segmentos apendiculares de forma simétrica. Frequentemente há envolvimento da musculatura craniana, levando a sinais de disfunção facial ou bulbar. A redução ou ausência de reflexos miotáticos é um achado característico na avaliação neurológica.

História clínica

Histórico recente de infecção, como infecções respiratórias ou gastrointestinais, pode preceder o início dos sintomas. Início súbito, geralmente em menos de 7 dias, da fraqueza pode sugerir a possibilidade de SGB. Em alguns casos, episódios de diarreia precedentes foram associados ao desenvolvimento da síndrome.

Importância do reconhecimento precoce

A suspeita deve ser elevada quando há progresso rápido da fraqueza, sobretudo em pacientes com idade superior a 50 anos, que podem apresentar pior prognóstico. Estar atento para acometimento neuromuscular em mais de um segmento e a presença de sintomas bulbares, que indicam risco para comprometimento respiratório.

02. Como diagnosticar a SGB

O diagnóstico da Síndrome de Guillain-Barré combina exame neurológico que revela fraqueza simétrica de evolução rápida e arreflexia com confirmação por eletroneuromiografia e líquor (dissociação albuminocitológica).

Esses achados, aliados à exclusão de outras causas de paresia flácida, permitem definir o subtipo da lesão e orientar o tratamento.

Exame clínico detalhado

Realizar avaliação neurológica completa, destacando a simetria e o padrão da fraqueza muscular, e registrando a ausência ou redução dos reflexos profundos. Avaliar a presença de fraquezas em músculos da face e dos membros superiores e inferiores, considerando a manifestação heterogênea.

Critérios diagnósticos e exames complementares

Utilizar critérios essenciais que incluem a progressão da fraqueza muscular ao longo de dias ou semanas, com comprometimento de mais de um segmento nervoso. Realizar estudos eletroneuromiográficos (ENMG) para documentar o padrão de desmielinização ou axonopatia, sendo crucial para confirmar a disfunção na condução nervosa. Alguns exames laboratoriais podem auxiliar na exclusão de outras causas de paresia flácida, como avaliações sorológicas e do líquor, que podem revelar albuminocitológica dissociação.

Diagnóstico diferencial

Considerar outras condições que podem levar a paresia generalizada, como miopatias, miastenia gravis, doenças metabólicas e intoxicações. Estabelecer a exclusão diagnóstica através da correlação clínica com os achados complementares, garantindo que o quadro característico da SGB esteja presente.

03. Quando internar na UTI

A internação em UTI torna-se imperativa diante da alta probabilidade de insuficiência respiratória, especialmente quando a fraqueza progride rapidamente ou há comprometimento de musculatura bulbar, manifestado por disfagia, disartria e risco de aspiração; nesses casos, o monitoramento contínuo da função pulmonar permite identificar precocemente fadiga dos músculos respiratórios e indicar suporte ventilatório mecânico. 

Critérios clínicos e riscos imediatos

Internação em UTI é indicada para pacientes com alta probabilidade de insuficiência respiratória devido à progressão rápida da fraqueza. Sinais de envolvimento de musculatura bulbar (disfagia, disartria e comprometimento da deglutição), que possam precipitar a aspiração e pneumonia, são sinais para encaminhamento urgente para a UTI.

Monitoramento da função respiratória

Pacientes com deterioração da função respiratória, baixa reserva vital ou evidências de fadiga dos músculos respiratórios requerem monitoramento intensivo e suporte ventilatório. A avaliação frequente da função pulmonar por meio de medidas como a capacidade vital inspiratória (CVI) pode indicar a necessidade de suporte ventilatório mecânico (VM).

Critérios objetivos para internação

Idade superior a 50 anos, presença de comorbidades e sinais de deterioração neuromuscular rápida devem ser considerados fatores de risco para pior prognóstico. A decisão de internar deve levar em conta a amplitude dos potenciais da neurocondução motora, onde valores significativamente reduzidos são preditores de complicações graves.

04. Quando iniciar o tratamento

O tratamento da SGB deve começar tão logo surja a suspeita clínica, sem aguardar resultados complementares, pois a intervenção precoce acelera a recuperação e reduz complicações; na fase aguda, o foco é estabilizar o paciente, corrigir eventuais distúrbios hemodinâmicos e impedir o avanço da fraqueza, o que exige encaminhamento imediato para serviços com suporte intensivo.

Início precoce e decisão terapêutica

O tratamento específico da SGB deve ser iniciado o mais precocemente possível, uma vez estabelecida a suspeita clínica, para acelerar a recuperação e minimizar complicações. A decisão de intervenção terapêutica não deve ser adiada à espera de resultados de exames complementares, sobretudo em casos com evolução rápida da fraqueza.

Fase aguda e tempo de intervenção

Durante a fase inicial, o objetivo terapêutico é estabilizar o paciente, corrigir alterações hemodinâmicas e prevenir a recaída ou agravamento do quadro neuromuscular. Assim que a suspeita diagnóstica é confirmada, o encaminhamento para atendimento especializado em unidades com suporte intensivo é imperativo.

Importância do encaminhamento imediato

O reconhecimento tardio pode levar a sequelas neurológicas residuais em longo prazo. Profissionais em atenção básica e emergências devem estar atentos e preparados para identificar sinais de agravamento e realizar o encaminhamento adequado.

05. Opções de tratamento

O tratamento específico da SGB baseia-se em duas terapias imunomoduladoras de primeira linha — imunoglobulina intravenosa (IgIV) e plasmaférese — que devem ser iniciadas precocemente.

Paralelamente, medidas de suporte são essenciais, incluindo ventilação mecânica quando há falência respiratória, monitorização hemodinâmica rigorosa e cuidados de UTI para prevenir complicações infecciosas. 

Imunoglobulina Intravenosa (IgIV)

Considerada opção terapêutica de primeira linha, com regime que visa a modulação imunológica e redução da resposta inflamatória. Esquema de administração padronizado, geralmente com doses calculadas por peso corporal, deve ser seguido rigorosamente para otimizar os resultados.

Plasmaférese (Troca Plasmática)

Indicada para reduzir a carga de autoanticorpos responsáveis pelo processo inflamatório na SGB. Protocolos de plasmaférese envolvem múltiplas sessões realizadas em intervalos definidos, conforme a gravidade do quadro.

Abordagem Não Medicamentosa Complementar

Suporte ventilatório quando necessário, com monitoramento rigoroso da função respiratória. Cuidados de suporte em UTI, incluindo monitoramento hemodinâmico e prevenção de complicações infecciosas, como pneumonia aspirativa e sepse hospitalar.

Critérios para Interrupção do Tratamento

A avaliação contínua dos parâmetros clínicos e eletrofisiológicos orienta o tempo de tratamento. Em casos de estabilização ou melhora clínica consistente, a reavaliação da necessidade de continuidade do tratamento imunomodulador deve ser realizada.